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Digital Magazine Vitruvius
2003

ARQUITETURA IN FLUXUS
O corpo como indutor, contaminador e formador do grande rizoma

autor: Heloisa Neves

 A cada dia que passa nossas cidades vêem crescendo vertiginosamente e o mais interessante é que elas crescem não só em território físico, mas também em busca de novas dimensões e modelos.

Há algum tempo uma nova cidade – a Cidade Mundial, dita virtual e especificada como algo em constante movimento – vem sendo criada através dos movimentos de nossos próprios corpos por um sistema de grande interação entre eles. Essa nova cidade se amplia em co-dependência com as cidades já existentes e se mistura a elas, contaminando e se deixando contaminar. Apesar de possuírem características muito específicas, arquiteturas próprias, elas concordam em um mesmo ponto: as duas dependem da “dança” maravilhosa dos corpos, dependem dessa força que cria e movimenta tudo.

O termo arquitetura in.fluxus tenta tratar de uma arquitetura que propõe o trânsito, o movimento, a deriva. Um lugar sem pontos fixos, com uma nova estrutura que se permite à fruição, à movimentação através de inúmeros vetores. Uma cidade onde os Corpos de cada habitante desenvolvendo movimentos, cria forças e constrói um novo urbanismo. Tal cidade já existe – para espanto dos mais tradicionais – e vem se tornando essencial em nossas vidas.

A Cidade Mundial, invisível a olhos muito acostumados a realidades tangíveis, fica situada entre todas as cidades do mundo, co-dependentes delas, mas com velocidade, espaço e tempo próprios. A Cidade Mundial traz muitas evoluções, podendo-se dizer que a maior delas é o relativismo. São Paulo pode ser vizinha de Pequim, já que a medida não é mais o fator quilometragem e sim velocidade. Portanto, se o corpo que faz a viagem possuir naquele momento alta velocidade, Pequim poderá estar a segundos de São Paulo.

Talvez a grande revolução feita pela Cidade Mundial seja a destruição das barreiras. Não possuindo localização fixa, cidades se confundem, ocupando espaços comuns e então referências de dentro e fora, público e privado são quebradas.

Muito importante se torna a relação entre público e privado nesse novo modo de pensar arquitetura. Aliás, em muitos casos, o público toma o lugar do privado. Muito se fala em globalização, mas a Cidade Mundial torna essa palavra praticável. Nela sim as fronteiras de todo o globo se tornam abertas e possíveis de se interagirem, as informações chegam a todos os corpos ao mesmo tempo permitindo a todos compartilharem as mesmas informações, ao mesmo tempo.

A busca pela conexão, pela formação perfeita da grande rede e pela coexistência dessas duas cidades (concreta e fluída) vem alterando nossa rotina, vem implantando um novo espaço e um novo tempo. Isso provém de pequenos movimentos executados por todos nós a todo instante. Cada corpo reinventando seu espaço modifica os meios de transporte e comunicação – que também é um meio de transporte – vindo a modificar o sistema de uma forma global. Quando todos esses meios se conectam, a grande rede está formada e os espaços multiplicados. Os corpos podem então participar de várias redes, os espaços são comuns a todos e se bifurcam de forma a nos engolir. Daí surge a heterogeneidade, a mestiçagem e a ampliação do território.

O movimento de cada corpo produz um efeito no sistema, não é por acaso que o carnaval brasileiro possua tamanha repercussão: 180 milhões de brasileiros pulando incansavelmente por quatro dias inteiros provavelmente pode causar uma grande “pane” na rede. A idéia de que nossos corpos podem habitar lugares mais fluídos do que nossa “casa cubos” passa a se tornar cada vez mais real.

O corpo é única arquitetura capaz de ser tão mutável e tão contemporânea como nenhuma outra já conseguiu ser, o melhor exemplo de arquitetura que contamina e se deixa contaminar e algo que consegue sentir e se adaptar a todo o movimento do universo. Além disso, o corpo é arquitetura que aloja e entende a lógica do movimento, criando conexões. Ao interagir com o movimento, apreende a lógica do fluxo e passa a movimentar-se coordenadamente com outros objetos e com outros corpos; passa a ser lugar de transferência e recebimento de informação, lugar de interação e troca, chegando a ser confundido com o próprio movimento.

“Abandonando o chão e seus pontos de apoio, ele escala fluxos, desliza nas interfaces, serve-se apenas de linhas de fuga, se vetoriza, se desterritorializa (…). Submisso à gravidade, mas jogando com o equilíbrio até tornar-se aéreo, o corpo em queda ou deslizamento perdeu seu peso. Torna-se velocidade, passagem, sobrevôo. Ascensional mesmo quando parece cair ou correr na horizontal, eis o corpo glorioso daquele que se lança ou do surfista, seu corpo virtual, que ao se virtualizar se multiplica. A virtualização não pode ser reduzida a um processo de desaparecimento ou de desmaterialização” (1).

Partindo do princípio de que esses novos corpos – habitantes da Cidade Mundial e ávidos por habitar uma cidade real mais fluída – podem desfrutar de um novo espaço, mais retalhado, onde é possível a visão de várias paisagens ao mesmo tempo, pode se conceber a idéia de vários corpos ocupando o mesmo espaço ao mesmo tempo.

Através dos novos meios de transporte/comunicação conseguimos estar em um mesmo espaço ao mesmo tempo em que outros corpos e, indo mais além, podemos estar em vários lugares ao mesmo tempo. Essa multiplicidade contribui substancialmente para a heterogeneidade da arquitetura, para essa nova maneira de se projetar.

O espaço existe agora de uma outra forma, deixando de ser estático e passivo e passando a ser dinâmico, fluído, ilimitado, temporal. O momento presente, o agora, é beneficiado então em detrimento do aqui, do local. Esse fato nos abre uma janela enorme, pode-se trabalhar com questões mundiais e não mais somente com questões regionais. Podem-se buscar outras realidades, outros povos, misturar tudo e fazer com que as cidades sejam pura mestiçagem.

O Brasil é um país com grande sorte nesse aspecto. Nossas origens já nos indicaram esse caminho. Vimos de uma grande mistura de africanos, portugueses, espanhóis, holandeses, italianos, japoneses e sabem-se lá mais quantos povos. As cidades brasileiras permitem e estimulam as culturas a circular, se devorar e se fundir. E o resultado é um gigantesco movimento de corpos.

O movimento tão antigo das migrações já contribuía para isso. Incrível como os nordestinos que vinham para o sul já entendiam que os corpos necessitam desse fluxo, necessitam sempre estar em busca de outros corpos, é o movimento de atração.

Além dos nordestinos podemos encontrar outros povos nômades, como exemplo cita-se os ciganos e os andarilhos (tão comum em nossas metrópoles).

Os ciganos vêem de muito tempo, são povos que buscam o mundo, não se contentam em permanecer estáticos e são extremamente ligados aos movimentos da terra. O lema deles é “o céu é meu teto; a terra é minha pátria e a liberdade é minha religião”. Daí já se percebe o porquê do nomadismo desse povo. Através de suas andanças eles respeitam um movimento que acontece na terra há muito tempo, são fiéis a ele e sabem que ele rege o mundo. Ao encontrarmos um verdadeiro cigano, nota-se que ele irá olhar primeiro para seus olhos, tentando captar suas energias e depois tocará seu pulso para sentir as mesmas vibrações energéticas. Depois disso ele usará sua sabedoria sobre quiromancia, tentando com ela orientar a mente, o corpo e o espírito; a saúde e a doença. São povos que se deixam levar pelo fluxo sem interferências e tentam sempre estar conectados e na mesma freqüência dos outros corpos e da terra.

Os andarilhos são filhos das metrópoles, são filhos de um urbanismo restritivo que não reservou lugares públicos, que não se lembrou que a rua às vezes também é casa para muitos. Mas ainda assim esse povo conseguiu projetar suas moradas e se implantar nas cidades. Incrível observar como eles criam suas moradias itinerantes: usam seu instrumento de trabalho como moradia durante a noite. Estou me referindo aos inúmeros catadores de lixo que perambulam pela cidade com seus “carrinhos”. Maravilhosa arquitetura de dormir, perfeito instrumentos de trabalho.

Esse texto vem em defesa de uma arquitetura que realmente entenda a lógica perfeita do movimento dos corpos, do grande poder de interação que existe entre eles e que deve ser repassado para nosso ambiente para que tudo seja habitado da maneira mais coerente.

Que essa milenar essência do movimento alojada em nossos corpos, possa nos ensinar como o grande rizoma deve ser formado.

nota

1
LÉVY, Pierre. O que é o virtual? São Paulo, Editora 34, 1996.

sobre o autor

Heloisa Domingues Neves é arquiteta e urbanista formada pela UNESP, recentemente apresentou seu trabalho final de graduação analisando os diversos fluxos criados pelos corpos. Atualmente é arquiteta colaboradora do escritório Vigliecca e Associados

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